
Listo as dez biografias políticas que me chamaram atenção no cinema nas últimas três décadas, por ordem de preferência e não cronológica.
Numa gradação, gosto muito do primeiro e quase nada do último, Lincoln, uma narração confusa e sem tensão do grande contador de histórias Steven Spielberg.
Em comum, eles têm o que faz o tempero das grandes biografias, a abordagem das idiossincrasias que aproximam os mitos de nossa humanidade.
Humanização aqui não tem a ver com torná-los necessariamente melhores, mas comuns como os mortais que tiveram a grandeza e a miséria de dirigir o destino de suas nações em momentos cruciais.
A Rainha – The Queen
Com a morte de Diana, a princesa que havia recuperado o apelo popular da então decadente monarquia britânica, a rainha Elizabeth II resiste a dar-lhe um funeral de realeza. Atrai alta rejeição pública e uma crise política que o primeiro ministro Tony Blair tenta remendar.
É das raras e mais notáveis cisões entre a vontade da rainha e a de seus súditos, que o grande roterista Peter Morgan, autor da série The Crown da Netflix, utiliza para revelar os conflitos muito humanos da mais longeva das rainhas e ao mesmo tempo a força de seu regime.
Direção de Stephen Frears e desempenho magistral de Helen Mirren no papel da rainha. De 2011.
O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland)
Um jovem médico humanitário vai para a miserável Uganda, na região central da África, e acaba virando assistente e conselheiro do ditador sanguinário Idi Amin Dada.
Vai ter que achar uma forma de escapar do risco que está correndo depois de testemunhar as atrocidades do ditador que ficou conhecido nos anos 70 por literalmente comer o fígado de seus opositores.
Oscar de melhor ator para Forrest Whitaker, que roubou a cena do médico Nicholas Carrigan, papel de James McAvoy neste filme de 2010. Roteiro também de Peter Morgan, de A Rainha, em parceria com Jeremy Brook.
O Discurso do Rei – The King’s Speech
O príncipe de York Albert (Colin Firth, Oscar de melhor ator) tem que assumir o reino da Inglaterra em substituição a Eduardo VIII, que abdicara para se casar com uma americana divorciada.
Mas tem que vencer a gagueira para se comunicar com a população numa época em que o rádio começa a se tornar essencial nas mobilizações de massa.
O roteiro premiado ao Oscar de David Seidler usa a relação de cumplicidade com o fonoaudiólogo Lionel Logue (Geoffrey Rush) para contar a história de complexos pessoais e superação do agora rei George VI, pai da rainha Elizabeth. De 2010.
Invictus
Se os complexos Nixon e Getúlio eram personagens amargurados no limite de suas encrencas históricas, Nelson Mandela era a generosidade em pessoa. Inevitável para um roteirista fazer de sua humanidade o empuxo para contar o grande conflito histórico a que deu causa e solução.
Alguns meses depois de eleito presidente da África do Sul, ao cabo de uma grande engenharia política para acabar com o apartheid que o mantivera na prisão por 27 anos, ele resolve reanimar a decadente seleção de rúgbi do país.
Quer colocá-la em condições de vencer o campeonato mundial e fazer do time orgulho dos brancos uma alavanca de reconciliação com os negros, para unificar o país ainda cindido pelo preconceito.
Pode se dizer que o roteiro é mais do diretor Clint Eastwood do que do roteirista que assina, Anthony Peckham. Tem todas as tintas desse diretor de roteiros simples, enxutos e levemente tensos que encomenda a seus roteiristas as mesmas histórias de heróis decaídos tentando se levantar.
Morgan Freeman, quase que escolhido por Mandela, ganhou o Oscar de ator pelo papel. De 2009.
A Queda – Der Undergang
Se tem um filme em que o diretor e o roteirista correram alto risco de humanizar seu protagonista, é esse A Queda, de 2004, em que o humanizado é nada menos que Adolf Hitler, o símbolo de todo o mal na terra.
Mas o diretor Oliver Hirschbiegel e o roteirista Bernd Eichinger conseguiram a proeza rara de abordar o lado humano da trupe de generais nazistas e suas mulheres que cercava o ditador no bunker em que se decidiu a rendição por suicídio à invasão iminente pelas tropas soviéticas.
A intenção aqui, de alto coturno, é refletir até que ponto seres humanos comuns como nós foram capazes de tanto ódio e atrocidade contra seus iguais. Nesse sentido, mostrá-los em seu desespero para salvarem-se e a suas famílias era matéria prima indispensável.
Indicado ao Oscar de filme estrangeiro, consagrou o ator suíço Bruno Ganz no papel. Muito por causa da cena de fúria com o oficialato que, dublada conforme o interesse, alimentou os mais variados memes sobre fracassos.
Nixon
Conhecido por sua mão pesada em filmes arrastados, o diretor Oliver Stone fez uma biografia de mais de 3 horas para contar a história do mais polêmico dos presidentes americanos. Instado à renúncia no caso Watergate, em 1974, foi o grande responsável por tirar os EUA da excruciante guerra do Vietnã.
Os roteiristas Stephen J. Rivele e Christopher Wilkinson, com o próprio Oliver Stone, optaram por um filme não linear, naquele tipo de narrativa fragmentada, de idas e vindas num fio histórico frágil, que agrava a sensação de arrasto para acompanhar este filme de 1995.
O grande Anthony Hopkins no papel amplia a intensão de compor o grande personagem complexo e amargurado, suspeito de abuso do álcool, misturando cenas da infância à vida conjugal com as cruciais que enfrentou no mandato.
O Destino de uma Nação (Darkest Hour)
Winston Churchill, o primeiro ministro inglês que conduziu a Inglaterra no momento em que ela poderia ser varrida do mapa ou entregue aos nazistas já é por natureza um personagem multifacetado.
Conhecido por suas idiossincrasias, seus ataques de fúria e de tirocínio político com que comandou a resistência das potências a Hitler, é um prato cheio para biografias que contemplem o lado pessoal.
O grande roteirista Anthony McCarten, de Dois Papas, só precisou dar vazão ao relato dos momentos cruciais do jornalista, escritor, diplomata e parlamentar até então obscuro que virou o estadista que prometeu aos britânicos nada mais que “sangue, suor e lágrimas”.
E o diretor Fulano Joe Wright de um ator como o magrelo Gary Oldman, Oscar de melhor ator, irreconhecível em seu tamanho e trejeitos para dar curso ao lado humano dessa grande personagem. De 2017.
A Dama de Ferro (The Iron Lady)
O jeito meio manjado de contar a história do biografado, em flashback a partir de suas lembranças, é o melhor indicativo do projeto do roteirista Abi Morgan de humanizar a velha senhora que mudou a história da Inglaterra com mãos de ferro.
Meryl Streep no papel, boa como sempre, conversa com o fantasma do marido para puxar os momentos essenciais em que tomou decisões impopulares para tirar a Inglaterra do atoleiro, nos anos 70, e comandou o país no enfrentamento com a Argentina, na Guerra das Malvinas.
As dificuldades para crescer, aparecer e ser ouvida numa carreira dominada pelos homens, modulam o filme, de 2011.
Getúlio
O presidente que governou o país ditatorialmente por 15 anos — e tropeçou muito nos quatro de mandato conquistado pelo voto popular — é outro personagem complexo que remeteria o roteirista George Moura à inevitabilidade de seu grande drama pessoal.
O roteiro colhe o ditador esclarecido nos últimos 19 dias de seu grande infortúnio pessoal diante da cadeia de crises políticas que resultaram na sua opção pelo suicídio, em agosto de 1954.
Já velho e amargurado, confiando apenas no amor da filha Alzira, é um rei nu a caminho do seu patíbulo.
O filme de João Jardim, de 2014, perdeu muito com a opção de Tony Ramos, no papel, de ignorar o sotaque gaúcho que era a marca do personagem público que arrastou multidões vivo e muito mais, depois de morto.
Lincoln
O diretor Steven Spielberg é ruim de entrar na psicologia dos personagens. Grande contador de histórias, se atém ao, digamos, correto relato dos fatos mesmo em suas aventuras por grandes dramas como A Lista de Schlinder e A Cor Púrpura, um tanto quanto sem tensão.
Daí que o roteiro de Tony Kushner, adaptado do livro de Doris Goodwin, se esmera nas longas negociações de Abraham Lincoln para aprovar, no final de 1865, a lei pelo fim da escravidão, antes do fim da guerra civil que divide o país ao meio.
Ao mesmo tempo que lidera os esforços de guerra da confederação contra o sul escravista que quer emancipação, ele tem que vencer uma batalha no Congresso conflagrado de interesses contra e a favor da libertação.
Somente algumas cenas de escambo político, em que Lincoln perde parte de sua mitologia para negociar cargos com os parlamentares, dão a dimensão humana desse filme de 2012. Que, talvez por isso, acabe arrastado e sem graça. Indicado para 12 Oscars, levou três — filme, direção de arte e ator para Daniel Day-Lewis.
[…] neste outro artigo sobre as dez biografias políticas que humanizam o poder, listei por uma ordem de importância […]