Volta da Folha de S. Paulo à plataforma é melhor sinal da decisão da rede de corrigir o equívoco de suprimir o conteúdo jornalístico em nome da interação irresponsável.

A Folha de S. Paulo foi o primeiro jornal a deixar de publicar no Facebook, em fevereiro de 2018, e o primeiro a retomar a atualização de sua página na rede social, no último 5 de julho.
Pioneiro em tantas coisas, um dos maiores jornais do mundo, suas decisões dão testemunho e dimensão das duas viradas históricas da rede de Mark Zuckerberg, contra e a favor do jornalismo profissional.
Equivocada a primeira e acertada a segunda, provocaram impactos profundos no ambiente político no mundo todo. Degradando-o primeiro para tentar restaurá-lo, agora.
Na primeira, em janeiro de 2018, o Facebook alterou seus algoritmos para reduzir a propagação de conteúdo jornalístico e priorizar a interação social. Jornais poderiam ter alguma repercussão se aceitassem entregar o seu conteúdo de graça, para a plataforma Instant Articles.
Menos pela ausência do conteúdo mais checado dos jornais e mais pela liberdade sem freios da publicação individual, a decisão fez explodir as fake news, a propagação do ódio e as bolhas sectárias que arrebentaram o debate político, com riscos graves para a normalidade democrática.
De forma que se consolidou a certeza de que o Facebook e seu enteado WhatsApp, que haviam servido para derrubar ditaduras na Primavera Árabe, também passaram a servir para destruir sistemas democráticos e influir na eleição de ditaduras sem contestação.
O escândalo da Cambridge Analytica, logo em março de 2018, foi didático para revelar o poder de manipulação da rede em movimentos tectônicos da história, como foram o Brexit, em 2014, e a eleição de Trump e outros ditadores pelo mundo, a partir de 2016.
Leia meu artigo: A Cambridge Analytica e o poder dos dados na revolução conservadora
À custa dos sistemas de representação dos país e em favor de mais cliques e milhões em faturamento e valorização da plataforma na Bolsa de valores.
Levado aos tribunais e a depor no Congresso americano, ameaçado de legislação mais forte, Zuckerberg ainda resistiu a mudanças que poderiam afetar seu modelo de negócio, que se baseava numa neutralidade irresponsável.
Foi preciso que os maiores anunciantes mundiais (Coca-Cola, GM, etc) ameaçassem um boicote, que abalou enfim seus números na Bolsa, para que ele se mexesse. Estavam convencidos, segundo se publicou, que ele não estava tomando atitudes que comprovassem vontade política de mudar.
Foi a partir daí que, assessorado por um conselho independente mundial, o Facebook montou uma estrutura mundial com recursos humanos e tecnológicos de inteligência artificial para censurar posts, eliminar contas e controlar propagação de informação falsa.
No ano passado, Zuckerberg declarou que havia nada menos que 35 mil pessoas contratadas pelo Facebook, no mundo todo, para revisar conteúdo online e implementar medidas de segurança.
A cada dia, são canceladas cerca de 1 milhão de contas falsas logo depois de abertas. Só no Brasil, de 2017 a 2020, foram apagados 714 perfis ocupados em “operações de influência, coordenadas para manipular ou corromper o debate público visando a um objetivo estratégico”. Só no passado, cerca de 50 milhões de postagens foram marcadas como “falsas”.
Em março de 2020, Facebook e Instagram removeram posts do presidente Bolsonaro e, em julho, contas ligadas à família Bolsonaro e ao gabinete da Presidência da República, por desinformação e uso de perfis duplicados para propagá-la.
Foi o fim do passe livre para políticos na rede o mais determinante para o retorno da Folha de S. Paulo à plataforma, segundo informa nesta matéria. Foi com base nela, que foi mantida a decisão de manter canceladas as contas de Donald Trump.
O jornal destaca também uma série de outras iniciativas que apontam para, mais que tolerância com os jornais, investimento mesmo no conteúdo dos jornais e no formento da atividade jornalística. O Facebook criou conselhos mundiais com participação de membros dos veículos e investe dinheiro para ajudar os jornais a treinar manter equipes de checagem.
Uma das principais barreiras que impedia o retorno da Folha, porém, era a impossibilidade de monetização de seu conteúdo, que, como ela denunciara, era usufruído pelo Facebook sem qualquer contrapartida.
O modelo do Instant Article, a partir de agora, terá o que se chama de paywall, parede de pagamento, como nas assinaturas, em que o acesso só é liberado em caso de remuneração.
Foi preciso, enfim, de tempo, reviravoltas históricas, um grande escândalo que comprovou o escândalo da manipulação do ambiente democrático e um boicote descomunal, para que todos aprendessem que as redes sociais não poderiam destruir o jornalismo.
Que, com todos os seus defeitos, suas maldades e seus interesses, têm pelo menos o mínimo que falta a todo inernauta isolado que passou a ser influente: checagem, antes de sair destruindo reputações.
Conteúdo da Folha no Facebook para mim é irrelevante.
Vou direto no site UOL leio que me interessa.
Facebook é para interagir com pessoas e não veículos de comunicação e congêneres.