
Que me lembre, a última vez que o país experimentou tal sensação de abismo e desesperança, como a de hoje, foi no final dos anos 80, nos estertores do governo José Sarney.
Sim, aquele que, tendo substituído Tancredo Neves convalescente no hospital, dissera na posse que Deus não o traria de tão longe para ser síndico de uma desgraça.
Foi.
1. Inflação em disparada,
2. dúvida sobre a competência do então ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, para domá-la,
3. elevada descrença nos políticos,
4. dúvidas sobre desvios de finalidade do SNI, a polícia federal de então,
5. a falência dos serviços públicos essenciais – saúde, educação, segurança,
6. corrupção privada e a ideia de que os empresários só queriam mamar nas tetas do poder,
7. uma máquina pública inchada, paquidérmica e improdutiva, comandada por um presidente abúlico.
O clima de fim de mundo e Vale Tudo gerou no final de 1988 uma novela com esse título e uma galeria de malandros bem sucedidos que terminavam premiados ao final.
A vilã Odete Roitman, cujo assassinato mesmerizou mais de 90% da população, morreu por engano e o maior dos salafrários, vivido por Reginaldo Farias, se despede do país, no último capítulo, com uma banana.
A abertura com música de Cazuza (com George Israel e Nilo Romero) era como a trilha sonora de uma época:
“Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim”
Ainda pior
Passados 25 anos, o quadro é pior é vários aspectos:
1. A máquina pública de pessoal é inchada e improdutiva. Toca mal os serviços essenciais – saúde, educação ,segurança –, emperra o andamento de obras e projetos, não tem capacidade de inovar. Só a parte de arrecadação, informatizada, funciona.
2. O Judiciário é emperrado, o sistema carcerário é um ninho de cobras, boa parte da polícia é corrupta.
3. O Legislativo é loteado por uma penca de partidos sem compromisso partidário, muitas vezes mais interessados em refinanciamento de suas campanhas.
4. A grande universidade pública está quebrada, inchada, com quase tantos professores e funcionários quanto alunos. Sua produtividade é pífia e seu currículo envenenado por uma ideologia fracassomaníaca de terceiro mundo, formando mais ideólogos do que gente produtiva.
5. O grande empresariado só anda com dinheiro do governo (BNDEs) ou fazendo obras para o governo. Superfatura e não entrega. Prefere aditivos sobre aditivos para arrancar mais um pouco a incidente produzido ou fabricado.
Nem as novelas, cada vez piores, sobraram. O futebol acabou por leniência e corrupção, as praias são tomadas por arrastões.
Para agravar ainda mais, quem estava na luta e nas ruas contra o governo, herdeiros na luta contra a ditadura, se associou ao inimigo:
1. O sindicalismo e a OAB pelegaram, as ONGs passaram a receber dinheiro público, intelectuais de esquerda montaram blogs para receber patrocínio estatal.
2. A Igreja Católica, linha de frente do combate à ditadura, seja na cúpula ou nas Comunidades Eclesiais de Base, perdeu sua força. Vem sendo substituída na ação política pelo pragmatismo dos evangélicos donos de rádios, TVs e partidos.
3. A grande imprensa perdeu seu impacto com a internet, desmoralizada a cada parágrafo pelas redes sociais. A internet criou um Vietnã de crimes de reputação, à direita e à esquerda. Não é possível conduzir mais a sério qualquer discussão relevante.
Até quando?
Era de se esperar que a mobilização em torno da Constituinte e da nova Constituição, promulgada em outubro daquele ano, criaria um novo país.
Mas o clima pariu, um ano depois, um salvador da pátria (Fernando Collor de Mello) que não conseguiu salvar-se nem a si próprio e, pouco mais de um ano depois, entregou um país ainda pior do que pegara.
Mais maduro politicamente, o país não parece não ter vocação para novo milagreiro, embora não tenha perdido a ingenuidade de eleger dirigentes sem experiência.
Calejado de tentativas golpistas, aprendeu a não dar espaço para tentações antidemocráticas.
O que não aprendeu ainda é como faz um país andar. Para frente. A sensação de decadência e de Vale Tudo, tão entranhada, não oferece alento de que, pelo menos na minha geração, vamos tomar jeito.
A situação hoje não é pior. Só de não ter inflação, melhora bastante.